



Durante décadas, falámos de logística em Angola como um custo.
Custo para o Estado.
Custo para as empresas.
Custo para quem tenta produzir, vender ou distribuir.
Esse é o primeiro erro.
Logística não é um custo.Logística é soberania económica.
Um país que não controla como os seus bens circulam — do campo à cidade, do porto ao consumidor, da fábrica ao mercado — não controla o seu crescimento, nem a sua competitividade, nem a sua inclusão social.
Em Angola, o desafio não é apenas mover mercadorias.
É ligar economias que ainda vivem desconectadas.
Hoje convivemos com:
Produção sem escoamento
Comércio sem previsibilidade
Pequenas empresas sem acesso
Cidades congestionadas
Jovens sem emprego formal
E um Estado que ainda olha para a logística como infraestrutura pesada, lenta e excessivamente centralizada
Mas a nova logística não vive apenas de portos, estradas e camiões.
Vive de redes, dados, confiança e última milha.
E é aqui que o pensamento precisa mudar.
Quando um produtor agrícola numa zna recondida perde parte da colheita por não conseguir escoar a tempo, o problema não é só dele.
É da economia.
Quando uma PME em Zonas perifericas não consegue entregar com regularidade, perde clientes, capital e fôlego para crescer.
Quando a distribuição falha, o país inteiro paga o preço — em desperdício, informalidade e desemprego.
O futuro da logística angolana não é apenas nacional — é urbano, local e quotidiano.
É:
o agricultor que finalmente consegue vender,
a PME que passa a cumprir prazos,
a mulher empreendedora que escala o seu negócio,
o jovem que entra numa cadeia formal de trabalho organizada.
Quando o governo pensa logística apenas como grandes corredores, perde metade do país.
Quando pensa apenas em infraestruturas físicas, ignora a infraestrutura invisível:
processos, operadores locais, tecnologia simples, formação e regulação inteligente.
Um sector logístico maduro não é aquele que tem mais camiões.
É aquele que tem menos fricção.
Menos fricção para quem produz.
Menos fricção para quem vende.
Menos fricção para quem entrega.
O papel do Estado não é competir com o sector privado.
É orquestrar.
Isso significa, na prática:
Criar regras claras e previsíveis
Abrir espaço para operadores locais crescerem e se formalizarem
Incentivar soluções leves, tecnológicas e escaláveis
Integrar a logística urbana e de última milha no planeamento das cidades
Regular sem travar, formalizar sem asfixiar
Angola não precisa copiar modelos europeus ou asiáticos.
Precisa construir um modelo compatível com a sua realidade:
informalidade elevada
cidades em crescimento acelerado
infraestruturas desiguais
enorme potencial humano
A logística pode ser um dos maiores motores de emprego jovem do país.
Mas só será se for pensada como sector estratégico, e não como serviço secundário.
Quando o Estado entende que cada entrega bem feita é economia em movimento,
quando percebe que cada operador organizado é inclusão produtiva,
quando aceita que tecnologia simples pode gerar impacto profundo,
então a logística deixa de ser um problema
e passa a ser uma alavanca de desenvolvimento nacional.
Essa é a Angola que cresce de dentro para fora.
Não apenas pelos grandes projectos,
mas pelas pequenas entregas que fazem a economia respirar todos os dias.