



Era uma manhã de segunda-feira em Luanda. Num escritório moderno no Talatona, um director de recursos humanos folheava pela terceira vez consecutiva uma pilha de currículos. Todos os candidatos tinham licenciaturas. Alguns tinham mestrados. Nenhum soube responder à pergunta mais simples da entrevista: "Descreva um problema real que resolveu durante o curso."
Silêncio. Olhares perdidos. Respostas decoradas.
Esse director não estava sozinho na sua frustração. Em todo o país, empresas, ministérios e organizações enfrentam o mesmo paradoxo: Angola forma cada vez mais graduados, mas encontra cada vez menos profissionais prontos para pensar, criar e resolver.
O problema não é falta de inteligência. Nunca foi. O problema é o sistema que temos construído, e o sistema que precisamos de transformar para criar outro melhor.
Para entender onde estamos, é preciso olhar para trás.
Angola emergiu de décadas de guerra civil com uma urgência legítima: alfabetizar, formar, escolarizar. Num país que precisava de reconstruir tudo, estradas, hospitais e instituições, a prioridade era produzir técnicos rapidamente. As universidades expandiram-se. Os números cresceram. O acesso democratizou-se, o que foi, em si mesmo, uma vitória histórica.
Mas a velocidade tem um custo. Quando se constrói depressa, constrói-se muitas vezes sem fundações sólidas. E foi o que aconteceu ao ensino superior angolano: cresceu em quantidade sem crescer em qualidade. Multiplicaram-se as instituições, multiplicaram-se os diplomas, mas o conhecimento aplicável ficou para trás.
Hoje, Angola está num momento de escolha. A renda petrolífera já não é garantida. A economia precisa de se diversificar. E a diversificação não se faz com decretos, faz-se com pessoas que pensam, inovam e resolvem. Pessoas que as universidades devem formar, mas que actualmente muitas vezes não estão a formar.
Do outro lado do mundo, existe uma instituição chamada MIT, o Massachusetts Institute of Technology. Fundado em 1861, o MIT não é famoso apenas pelos seus prémios Nobel ou pelos seus laboratórios. É famoso por uma filosofia: mens et manus, mente e mão, teoria e prática inseparáveis. O estudante do MIT não aprende apenas o que é a termodinâmica, constrói um motor. Não aprende apenas economia, analisa mercados reais e propõe soluções concretas.
No Japão, a ligação entre universidades, indústria e Estado não é uma aspiração, é uma estrutura. As empresas japonesas cresceram, em grande parte, porque as universidades japonesas as alimentaram com investigadores, engenheiros e analistas formados para resolver os problemas reais do país.
Nos Estados Unidos, os rankings universitários não são apenas vaidade académica. São instrumentos de pressão e transparência que forçam as instituições a competir pela qualidade, e que orientam estudantes, empregadores e financiadores a fazerem escolhas informadas.
Estes modelos não são perfeitos. Mas têm algo em comum: foram construídos com intenção. A qualidade não aconteceu por acaso, foi política, cultura e exigência acumulada ao longo de décadas.
Angola pode e deve aprender com eles, não copiando cegamente, mas adaptando com inteligência.
Imagine um estudante de Engenharia no seu último ano de licenciatura. Durante cinco anos, decorou fórmulas, fez exames, passou de ano. Mas nunca projectou nada. Nunca resolveu um problema real.
A partir do 3.º ano, a avaliação deve evoluir: projectos de investigação, estudos de caso, soluções reais para problemas concretos. Cursos de Economia, Gestão e Engenharia devem exigir relatórios de impacto sobre empresas, mercados ou políticas públicas. A memória deve ceder espaço ao pensamento.
As melhores universidades americanas têm centros de pensamento internos, onde estudantes e professores analisam a realidade e publicam os seus resultados para o mundo.
Angola precisa do mesmo. Núcleos permanentes de análise da economia angolana, capazes de produzir relatórios trimestrais, previsões económicas e avaliações de políticas públicas, não para encher prateleiras, mas para alimentar o debate nacional com dados, rigor e pensamento crítico.
No modelo japonês, a universidade não existe à margem da sociedade, está no centro dela. Estágios com impacto real, projectos desenvolvidos em parceria com ministérios e empresas, investigação aplicada aos desafios do país.
A universidade angolana não pode continuar a ser uma ilha. Deve ser um laboratório vivo da nação.
Nos Estados Unidos, um professor universitário é avaliado constantemente, pela sua produção científica, pela qualidade do seu ensino, pelo feedback dos seus alunos. A docência não é um privilégio permanente, é uma responsabilidade contínua.
Em Angola, é urgente romper com a cultura do cargo académico como posição sem prestação de contas. Avaliar é respeitar, os alunos, o conhecimento e o próprio docente.
Sem investigação, não há universidade, há apenas ensino técnico prolongado. Instituições como Harvard constroem a sua reputação sobre décadas de produção científica consistente e rigorosa.
A proposta é simples: professores que não investigam não progridem. E o Estado deve criar as condições para que essa investigação aconteça, com incentivos financeiros, revistas científicas nacionais credíveis e parcerias com instituições internacionais.
O excesso de teoria é um dos maiores problemas do ensino superior angolano. Aulas magistrais, manuais desactualizados, avaliações baseadas em memorização.
O caminho é outro: aulas baseadas em problemas reais, simulações, laboratórios e projectos. Aprender fazendo, como faz o melhor estudante do MIT, como faz o melhor engenheiro japonês.
A transparência é a melhor política pública que existe. Quando os rankings americanos classificam as universidades, criam uma pressão saudável: quem quer os melhores alunos e os melhores financiamentos tem de ser melhor.
Angola precisa de um sistema nacional que avalie a empregabilidade dos graduados, a produção científica e a qualidade do ensino, e que publique esses resultados para que toda a sociedade possa decidir com informação.
O mundo global não espera por quem se fecha em si mesmo. As universidades de topo são globais por natureza, recebem alunos de todo o mundo, contratam professores de várias nacionalidades e publicam em várias línguas.
Angola precisa de programas de intercâmbio robustos, de atrair professores estrangeiros de qualidade e de criar cursos bilingues que preparem os seus graduados para competir globalmente.
Nas melhores universidades americanas, o debate não é uma actividade extracurricular, é o coração do processo académico. Estudantes debatem com professores, professores debatem entre si, e a sociedade é convidada a participar.
Em Angola, é preciso criar essa cultura: fóruns interuniversitários, debates entre estudantes, académicos, políticos e empresários. Sem questionamento, não há inovação. E sem inovação, não há futuro.
O dinheiro público é escasso. E onde é escasso, deve ser inteligente. Nos sistemas mais avançados, as universidades que produzem melhores resultados recebem mais apoio. As que ficam para trás são pressionadas a melhorar, ou a encerrar.
Em Angola, o financiamento às universidades deve estar ligado a resultados mensuráveis: empregabilidade, produção científica e qualidade do ensino. Financiar quantidade sem avaliar qualidade é desperdiçar o futuro.
Voltemos ao director de recursos humanos do início desta história. Ele ainda está à procura. E vai continuar à procura, enquanto o sistema que temos não mudar.
Mas a mudança é possível. Não virá de um decreto nem de uma conferência. Virá da acumulação de pequenas decisões corajosas: um professor que exige mais, uma universidade que publica os seus resultados, um ministério que financia pela qualidade, um estudante que recusa aprender apenas para passar.
Angola tem talento. Sempre teve. O que faltou, até agora, foi o sistema que o transforma em conhecimento, e o conhecimento que se transforma em país.
O futuro de Angola não será decidido apenas nos campos petrolíferos do Soyo ou do Cabinda. Será decidido numa sala de aula em Luanda, numa biblioteca em Huambo, num laboratório em Benguela, onde um jovem angolano, com a ferramenta certa nas mãos, resolve um problema que ninguém tinha resolvido antes.
Essa revolução não faz barulho. Mas é a única que importa.